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Água de represas contribuiu com 2,7% da inundação, mostra estudo
Levantamento mostra que vários fatores contribuíram para cheia do Rio Lençóis, chuva do dia 12 de janeiro foi um desastre
Água de represas contribuiu com 2,7% da inundação, mostra estudo
DEPOIMENTO Antônio da Silveira presta depoimento na Comissão Especial de Inquérito na Câmara de Lençóis - (Foto: Tiago Moreno/O ECO)
Na próxima terça-feira, 12 de abril, a cidade completa 3 meses da pior cheia do Rio Lençóis que se tem registro. Foram mais de 1.342 pessoas atingidas, com 997 desabrigados e cerca de R$ 68,2 milhões em prejuízos. Nesse tempo também um grupo de estudos formado pela Prefeitura, produziu um estudo para tentar compreender o que provocou essa que é a pior tragédia hídrica da história de Lençóis. De acordo com Antônio da Silveira Correa, o estudo mostrou que foram muitos os fatores que contribuíram para a inundação: saturação do solo, rompimento de represas e tanques, água vinda de curvas de nível. Mas, segundo o estudo, o principal causador da cheia do rio foi o extremo climático registrado na região no dia 12 de janeiro. Uma chuva de 213 milímetros que segundo estudos hidrológicos tem um período de retorno de 6 mil anos. Cálculos feitos pelo estudo mostram que as represas contribuíram com 2,7% do volume de água que chegou a Lençóis Paulista nos dias 12 e 13 de janeiro.
“Nesses últimos meses, nós fizemos um trabalho bastante sério e complexo, com levantamento de dados e imagens para entender o que, de fato, aconteceu naquele dia 12 de janeiro. E o que nós podemos dizer é que Lençóis Paulista viveu um desastre natural nunca antes visto”, disse Silveira. “Mesmo que nós tivéssemos feito algumas obras, como canalização do rio, construção de uma barragem entre outras coisas, que teriam custo estimado de R$ 100 milhões, pelos nossos estudos, seriam insuficientes para evitar a inundação que ocorreu em Lençóis”, completou o diretor que junto com o diretor de Meio Ambiente, Dito Martins, liderou o grupo de estudo.
Silveira e Dito Martins se inscreveram para prestar essas informações para a CEI (Comissão Especial de Inquérito) criada pela Câmara Municipal para apurar as causas e os responsáveis pela inundação. O depoimento aconteceu na quarta-feira, mas o presidente da comissão, Ailton Tipó Laurindo (PMDB) impediu que eles passassem o resultado do estudo para os vereadores o público presente (veja box abaixo).
De acordo com o estudo, foram muitos os fatores que contribuíram para a cheia. Só para se ter uma ideia entre os dias 9 e 12 de janeiro choveu na bacia do Rio Lençóis, que equivale a uma região de 310 milhões de metros quadrados, com um perímetro de 92 quilômetros, mais de 387 milímetros de chuva. Cada milímetro de chuva equivale a um litro de água por metro quadrado.
O levantamento, segundo Silveira, mostra inclusive que no mês de janeiro deste ano choveu menos do que em janeiro de 2011, quando Lençóis também enfrentou uma inundação no dia 17. “A diferença, no entanto, é que em 2011 choveu 610 milímetros em 19 dias e que nesse ano choveu 519 milímetros em 9 dias, sendo 387 apenas entre o dia 9 e 12. Foi um volume de chuva realmente muito grande”, disse o diretor.
Silveira disse ainda que eles também fizeram os cálculos do volume descarregado no Rio Lençóis pelas 10 represas e três tanques que se romperam em virtude da chuva. “Nós estivemos em cada uma dessas represas e fizemos medições para descobrir o volume aproximado de cada uma delas. Pelos nossos cálculos a água das represas correspondeu a 2,7% do total de água que chegou a área urbana de Lençóis Paulista”, diz.
 
 
Câmara de monitoramento ‘acompanharam’ inundação
O diretor de Obras disse ainda que é preciso fazer uma separação entre enchente e inundação, este último que foi o que ocorreu em Lençóis. Segundo especialista em hidrologia, enchente é quando o rio sobe, mas ainda sim não ultrapassa a calha do rio, ou seja, não transborda. Já a inundação é quando a água do rio extravasa e passa a ocupar outras áreas. O estudo feito pela prefeitura mostra quando a enchente se transformou em inundação e os horários e que esses eventos ocorreram.
Para fazer isso, o levantamento usou imagens das câmeras de videomonitoramento de Lençóis, principalmente uma instalada no cruzamento da rua Ignácio Anselmo com a 25 de Janeiro. “Até as 20h do dia 12 de janeiro o rio havia subido, mas ainda estava na calha. Ou seja, tínhamos uma situação de enchente. Entre as 20h e 22h, após aquela forte chuva, o rio começou a subir e se transformou em inundação que durou até as 12h do dia 14 de janeiro, quando o rio voltou para a calha”, disse.
A imagem feita pela câmara da fachada de uma loja de móveis mostrou que a água já estava a 1,8 metro de altura às 9h37 do dia 13. Depois, segundo as imagens, ela subiu rápido até chegar aos 3 metros às 14h, que foi o pico. 
“Nós estamos bastante convictos do nosso estudo, porque nossos cálculos começam a bater com as imagens. Porque se a primeira represa rompeu às 23h30 e segunda a 1h do dia 13 essa água começou a chegar aqui por volta das 10h e nesse horário a rua 25 de Janeiro já estava com mais de 2 metros de água”, finaliza Silveira
 
“Obras não seriam suficientes para evitar inundação”, diz Silveira
O diretor de Obras de Lençóis Paulista, Antonio da Silveira Correa afirmou que no estudo realizado pela prefeitura sobre a inundação do dia 12 de janeiro além das causas, eles também fizeram um levantamento de obras que poderiam ajudar a evitar o que ocorreu. Segundo ele, a conclusão do estudo, no entanto, mostrou que mesmo que a prefeitura faça essas obras elas serão insuficientes para evitar uma nova inundação do porte que aconteceu neste ano.
De acordo com Silveira, estão incluídas obras como a troca de cinco pontes, a construção de dois barramentos – uma espécie de represa – a montante da cidade e a canalização do rio Lençóis, Córrego da Prata e Córrego Corvo Branco. O valor estimado pela prefeitura para executar essas obras é de R$ 100 milhões. No entanto, segundo Silveira essas obras são dimensionadas baseadas na probabilidade do período de retorno dos maiores índices pluviométricos (manual de calculo de vazão máxima) adotada pelo DAAE, órgão oficial que fiscaliza e autoriza as outorgas.  Ou seja, com base nos dados hidrológicos da região é definido o dimensionamento do projeto e o período de “garantia” de que aquela obra vai suportar os próximos 100 anos. 
“Mas a questão é que a chuva do dia 12 de janeiro, tomando por base esses cálculos ela é considerada uma chuva com período de retorno de 6 mil anos, ou seja, muito superior. Veja bem, não significa que uma chuva dessa vai ocorrer só daqui a 6 mil anos, mas a chance dela voltar a ocorrer num curto período de tempo é pequeno e vai aumentando conforme o tempo”, diz Silveira.
“Por isso, mesmo que nós executemos essas obras a um custo de R$ 100 milhões, elas não teriam resistido essa chuva, por que o período de retorno delas seria de 100 anos, mas a chuva foi de 6 mil, o que comprava que o que Lençóis viveu foi um desastre natural”, completa
Silveira deu como exemplo a represa de Barra Bonita, que em janeiro também precisou abrir todas as suas comportas por falta de capacidade de armazenamento das aguas e acabou inundando parte da cidade e regiões ribeirinhas. “A barragem de Borra Bonita é uma obra dimensionada para um período de precipitação decamilenar, ou seja, tem um prazo de retorno de 10 mil anos. Mas ela teve que abrir todas as comportar para evitar que a água passasse sobre a barragem e causasse danos maiores”, completa.
 
Tipó impede que diretores apresentem estudo sobre a inundação
O vereador e presidente da CEI da Enchente, Ailton Tipó Laurindo (PMDB), impediu que Dito Martins, diretor de Meio Ambiente, Antonio da Silveira Correia, diretor de Obras e José Alberto Paschoarelli apresentassem um estudo realizado pela prefeitura que mostrou as causas da inundação ocorrida dia 12 de janeiro. Além disso, eles foram impedidos de ficar na galeria da Câmara e acompanhar o depoimento dos colegas. Paschoarelli ficou quase 4 horas em uma sala isolado do resto dos participantes.
Os servidores municipais não foram convocados para prestar depoimento, mas se inscreveram, segundo eles, para tentar contribuir com as informações levantadas nestes últimos meses sobre a enchente. “Eu me senti um pouco constrangido com a situação. Sinceramente não entendi porque o vereador não permitiu que nós ficássemos no plenário. Ele disse que foi uma orientação do doutor Antonio Rocha e nós acatamos”, disse Dito Martins.
Silveira disse ainda que eles tinham preparado um material para apresentar na CEI, inclusive com slides com imagens e dados, mas Tipó não permitiu que eles apresentassem. “Nós apenas respondemos as perguntas que ele fez e não conseguimos passar as informações que tínhamos preparado”, disse.
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