Lençoenses contam como venceram a Covid-19
Rotina de exames, sintomas agudos e quarentena fizeram parte da recuperação; relatos ainda incluem a importância da família
“Não tem como não sentir medo, é tudo muito novo, mas diante dessa situação, minha família foi fundamental para superar o tratamento e a solidão proporcionados pelo isolamento”. “Penso que estou curado, porém, não posso afirmar, já que os exames serão feitos a partir da próxima semana”. “As dores no pulmão e a falta de ar chegaram ao ponto em que eu não conseguia mais dormir. Assim que pegava no sono, sofria uma apneia e acordava tossindo de um pesadelo no qual eu me afogava. O que essas frases têm em comum? Todas elas foram ditas por lençoenses que contraíram o novo coronavírus (Covid-19).
Diante de tais depoimentos, pouco a pouco alguns mistérios dessa temível e enigmática doença começam a vir à tona. Antes, o que se sabia era apenas a rapidez e facilidade do contágio. Hoje, o mundo conhece mais de perto essa pandemia, já que sente na pele os seus efeitos. Febre, coriza, dores de garganta e no pulmão, falta de ar, cansaço, tosse seca... É possível estar com a Covid-19 por até 14 dias antes de apresentar tais sintomas. A maioria das pessoas (cerca de 80%) se recupera da doença sem a necessidade de tratamentos especiais, mas em casos mais raros, ela pode ser grave e até fatal. Idosos e pessoas com as chamadas comorbidades (como asma, diabetes e doenças cardíacas) são mais vulneráveis a quadros sérios.
O Jornal O ECO entrou em contato com três lençoenses que contraíram o novo coronavírus. Dois deles moram na Europa, enquanto o terceiro reside em Lençóis Paulista. Abaixo você confere como foi a experiência de cada um.
“As dores chegaram ao ponto em que eu não conseguia mais dormir”
O lençoense Hailton Ferraz da Silva Junior, de 31 anos, mora em Berlin, na Alemanha, onde trabalha como gerente de desenvolvimento de software. Vítima do novo coronavírus, ele diz que não se lembra ao certo como contraiu a doença, já que, até desenvolver os sintomas, não teve contato com ninguém diagnosticado. A suspeita é que tenha pego durante uma viagem de trem.
Silva Junior conta que, inicialmente, teve febre e tosse leve, que achou ser um resfriado. Porém, como começou a sentir ardência nos pulmões e falta de ar, passou a suspeitar que estava com o vírus e procurou um médico. A recomendação foi para que ficasse em casa e evitasse qualquer contato com outras pessoas, mas os sintomas foram piorando gradativamente.
“As dores no pulmão e a falta de ar chegaram ao ponto em que eu não conseguia mais dormir. Assim que pegava no sono, sofria uma apneia e acordava tossindo de um pesadelo no qual eu me afogava. Voltei à clínica no outro dia, junto ao meu companheiro que está morando comigo, pois seríamos ambos testados. Fomos recebidos com máscaras e desinfetantes e pediram para que não encostássemos em absolutamente nada”, diz.
Quando o resultado dos exames saiu, a surpresa: a amostra do lençoense deu negativa, enquanto a de seu companheiro, positiva. “O médico me disse que isso provavelmente aconteceu porque no momento do teste meu organismo já tinha eliminado o vírus e estava lidando com a inflamação causada pelo dano e exposição às bactérias que, diante do baixo sistema imunológico, começaram a se proliferar”, destaca.
Outra possibilidade seria um falso-negativo, o que não é tão incomum. Porém, o fato de o lençoense ter os sintomas e viver com uma pessoa comprovadamente positiva foi suficiente para o diagnóstico da doença. Em mais de duas semanas de quarentena, ambos dependeram de amigos para fazerem compras. Se saíssem de casa poderiam ser multados ou até mesmo presos.
Um mês após os primeiros sintomas, Silva Junior está curado, embora sinta que ainda não tenha recuperado completamente a capacidade respiratória. “O médico disse que leva algumas semanas ainda. Enquanto uma gripe melhora em dois ou três dias, com o novo coronavírus levei duas semanas para começar a me sentir saudável novamente”, destaca o lençoense.
Na Alemanha, todas as atividades não essenciais estão suspensas. As pessoas podem sair de casa para comprar alimentos, passear com o cachorro ou praticar esportes, mas qualquer aglomeração acima de duas pessoas é proibida “Eu vi grupos de pessoas serem multados em parques por desobedecerem a esta ordem. Porém, de maneira geral, a população está levando com muita seriedade o distanciamento”, enfatiza o lençoense.
“Minha maior preocupação foi minha família”
O empresário Luca Paganessi nasceu na Itália, mas morou em Lençóis Paulista durante 15 anos. O lençoense de coração voltou para o seu país e lá contraiu o novo coronavírus, mas não sabe ao certo o momento do contágio. “Pode ter sido no bar, no mercado, na corrida matinal”, diz. Seu pai também teve a doença e está internado há 46 dias, sem previsão de alta, pois ainda requer certos cuidados por conta da idade.
Paganessi conta que teve mal-estar, febre alta e diarreia. Quando aparentemente estava melhor, 15 dias depois do diagnóstico, teve uma forte recaída, com dores “insuportáveis” na lateral da barriga, ficando duas noites praticamente sem dormir. “Comecei a expelir sangue pela boca e nariz. Foi quando veio o diagnóstico de pneumonia, e foi nesse momento que os médicos entraram com antibióticos”, comenta.
O ítalo-brasileiro relata que não precisou ficar internado e, hoje, 45 dias depois, já não sente nenhum reflexo da Civid-19. “Penso que estou curado, porém, não posso afirmar, já que os exames serão feitos a partir da próxima semana”, esclarece o empresário, que destaca que no processo de tratamento um componente foi essencial na sua vida: a família.
“Quando o médico me disse que eu era positivo, não fiquei tão surpreso, porque o meu pai já havia sido diagnosticado. Minha maior preocupação foi minha família, que me apoiou muito nesses momentos difíceis. Minha esposa sempre demonstrou preocupação, me monitorava e ajudava dentro do possível. Já minha filha teve um entendimento da situação que eu não sei explicar”, frisa.
A Itália se prepara para começar a sair da quarentena, mas ainda com restrições. Para Paganessi, o isolamento social tem sido complicado, pois tirou a liberdade de ir e vir das pessoas, que tiveram que mudar drasticamente suas rotinas e planos. No entanto, ele acredita ser algo necessário, mesmo que ainda não haja previsão para voltar à ‘vida normal’.
“É um passo de cada vez, com cautela. Mesmo com o retorno gradativo, ainda haverá um período de dor e medo pelo que passamos e ainda estamos passando. Não é nada fácil, mas com o tempo tudo se ajeita. Sou grato por estar bem, pela minha esposa e filha não terem sido vítimas do vírus e também por não ter perdido nenhum familiar. Agora é só esperar tudo isso passar e bola para frente”, completa Paganessi.
“Uma coisa é ver tudo na televisão e a outra é sentir na pele”
V.P., de 49 anos, morador de Lençóis Paulista e colaborador de uma indústria local, prefere o anonimato para falar sobre a sua experiência com o novo coronavírus. Ele acredita que tenha contraído a doença através de transmissão comunitária, já que não teve qualquer histórico de viagens e nem contato com alguém que foi diagnosticado com a Covid-19.
“Começou com uma coriza comum e, após três dias, veio a inflamação na garganta e a febre. Mesmo medicado, essa febre alta era persistente. Em seguida vieram as dores no corpo e foi naquele momento que retornei ao médico, pois estava tratando somente os primeiros sintomas de gripe. Como o quadro já havia mudado bastante, no mesmo dia realizei outros exames”, explica.
Ao retornar para o consultório com os resultados em mãos, diante das imagens, o médico orientou que o lençoense fosse ao Hospital Nossa Senhora da Piedade, onde o médico plantonista já estava ciente da necessidade de uma tomografia. O exame foi realizado e revelou lesões nos pulmões, imagens estas sugestivas para infecção pelo novo coronavírus.
Foram 11 dias de internação. “O isolamento é bastante difícil, mas ainda bem que eu podia ficar com o celular para poder me comunicar com minha família e amigos. Era dessa maneira que recebia mensagens de otimismo e fé”, destaca ele, que revela que chegou a precisar utilizar oxigênio para não forçar os pulmões, mas que, graças ao bom atendimento de toda a equipe, se recuperou.
Quando a contraprova chegou, diz que levou um choque. “Eu tinha noção das evidências, porém, uma coisa é ver tudo na televisão e a outra é sentir na pele”, frisa. O que deixou o lençoense surpreso foi o fato de ele não ser do grupo de risco, mas mesmo assim, ser vítima do novo coronavírus. “Para quem acha que esse vírus é apenas para o grupo de risco e idosos, eu sou uma prova de que, infelizmente, não é bem assim”, diz.
Para finalizar, o lençoense fala da importância da família na superação da doença mais temida neste momento. “Não tem como não sentir medo, é tudo muito novo, mas diante dessa situação, minha família foi fundamental para superar o tratamento e a solidão proporcionados pelo isolamento. Agora, de alta, já estou em casa me sentindo bem. Tenho alguns dias de repouso leve para cumprir e, depois, voltar à vida normal”, completa.
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