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Cabra arretado de verdade
Piauiense de nascença e lençoense de coração, “seo” Raimundo conta sua história de luta e superação
Cabra arretado de verdade
DOM DIVINO - “Seo” Raimundo conta com orgulho que aprendeu sozinho a trabalhar com o couro e produzir inúmeros acessórios - (Foto: Elton Laud/ OECO)
Os lençoenses que frequentam o Varejão Municipal aos domingos provavelmente já conhecem o trabalho de “seo” Raimundo Pereira dos Santos, o simpático artesão da barraca dos artigos em couro. É lá que há cerca de 14 anos ele expõe o seu trabalho e batalha para complementar a renda familiar e arcar com as despesas da casa, onde vive com a esposa e dois netos que cria como seus próprios filhos.
Natural do estado nordestino do Piauí, “seo” Raimundo é cabra arretado e conhece como ninguém os perrengues da vida, como ele próprio faz questão de lembrar. Os tempos são difíceis, mas nada é capaz de lhe tirar o sorriso do rosto. Às vezes passa o domingo todo sem vender uma peça sequer, mas não se lamenta. Pelo contrário, agradece a Deus todos os dias.
Mesmo durante a infância e adolescência sofrida que teve na cidade de São Raimundo Nonato, não desanimava. Na roça, onde ajudava o pai a tirar o sustento da família de 11 filhos cultivando o pouco que o clima seco do sertão permitia, enquanto trabalhava, sonhava com o dia em que iria melhorar de vida.
Em 1960, aos 17 anos, decidiu tentar a sorte. A convite de um conhecido, se mudou para a recém-inaugurada Brasília, a promissora Capital Federal. Mas o sonho logo se tornou um pesadelo. As coisas não deram tão certo como o planejado e depois de algum tempo, sem trabalho e nem lugar para morar, passou fome, dormiu ao relento.
“A pessoa que me levou para lá não tinha condições de continuar me ajudando e um dia me disse que eu ia ter que me virar sozinho. Não tinha para onde ir e muitas vezes dormia na rodoviária, sem ter nem como tomar banho. Trabalhava como engraxate e fazendo a limpeza de alguns terrenos, mas o pouco que ganhava, mal dava para comprar o que comer”, recorda.
Assim viveu por um ano e meio, antes de vir para São Paulo. Morou por alguns meses na casa de parentes em São Miguel Paulista e, em 1962, chegou a Lençóis Paulista trazido por um amigo. Aqui conheceu dona Adélia Leme dos Santos, com que é casado há 53 anos e tem cinco filhos, 11 netos e dois bisnetos.
Depois de alguns anos trabalhando na lavoura mudou-se novamente para a capital paulista. Lá aprendeu o ofício de carpinteiro, mas um acidente sofrido em 1973, quando caiu de cabeça de um telhado onde estava colocando forros, o impossibilitou de continuar trabalhando. Passou a receber um auxílio-doença, mas o dinheiro não dava para as despesas. Foi quando começou a produzir artigos em couro para complementar a renda.
“Quando eu trabalhava como carpinteiro eu já fazia cintos para colocar o martelo e pregos. Depois do acidente eu precisava ganhar dinheiro de alguma forma e decidi começar a fazer cintos e bolsas. Ninguém me ensinou. Meu professor foi Deus. É um dom que ele me deu. Não sei ler nem escrever direito, mas agradeço pelo conhecimento que eu tenho. Me considero um estilista”, ressalta.
E o professor parece ter caprichado nos ensinamentos. Os cintos, bolsas, chapéus, pulseiras, carteiras e tantos outros acessórios feitos por “seo” Raimundo faziam sucesso na feira hippie da Praça da República, em São Paulo. Foi com a renda como artesão que criou os filhos e se manteve durante os 25 anos que morou na capital, coisa que ele se orgulha em dizer.
Mas o destino o trouxe de volta a Lençóis, em 1994. Aqui conseguiu, depois de muito trabalho, comprar sua casinha no Parque Rondon, onde, apesar da saudade de sua terra natal, ele pretende ficar até o fim.
“Já fui muitas vezes ao Piauí para visitar a família, até depois que meus pais se foram. Uma irmã ainda cuida do velho sítio onde eu nasci. Me sinto muito bem quando vou para lá, não existe mais aquela pobreza de antes, que me fez tentar a vida por aqui. Mas agora meu lugar é este. Eu gosto muito daqui e aqui vou ficar enquanto Deus quiser”, exclama.
Hoje, dia 11, aliás, “seo” Raimundo completa 73 anos de idade. Com sua história de luta e superação, só nos resta dar a ele os parabéns, pelo aniversário e pela determinação.
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